About her . . .


Nome: Angelina Genevieve BlanchardNascimento: 26 de Novembro de 2002.Profissão: Estudante de medicina e stripper.Naturalidade: New York, the Big Apple.


Angelina cresceu entre bisturis, promessas de cura e a ética que os pais carregavam como juramento. Eles não só cuidavam de pessoas — construíram um império da saúde. Hospitais, clínicas, laboratórios. Um legado.Mas todo império esconde rachaduras.E algumas rachaduras sangram.O que parecia um acidente de carro levou seus pais a um coma irreversível. Um mês de internação. Cirurgias mal-sucedidas. E depois… silêncio. Laudos rasurados. Documentos sumindo. Perguntas sem respostas.O que ficou pra ela não foi herança. Foi dívida.O peso esmagador de saber que havia algo muito maior por trás da morte deles.Sumiram com tudo — menos com ela.E se esperavam que ela fosse fácil de apagar, erraram feio.Angel virou o próprio sustento.
De jaleco de manhã, de salto à noite.
Pagando cada centavo da faculdade como stripper, enquanto refaz cada passo do mistério que matou seus pais — e que, agora, ameaça mais gente do que ela imaginava.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Continua seis anos depois, em “o sequestro”.

Links ᅟᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟᅟ

O salto ecoava no mármore enquanto eu ajeitava o vestido na frente do espelho. E, por uns segundos — bem poucos, tá? — até parecia que a minha vida inteira não tinha sido jogada de cara no asfalto e atropelada duas vezes. Por uns segundos, parecia só mais uma noite qualquer numa cidade grande como a que eu cresci. Daquelas que, anos atrás, meu maior problema era escolher entre dois vestidos. E não, sei lá… descobrir como pagar as contas, não surtar na faculdade, trabalhar de madrugada no clube e, de quebra, tentar entender o que realmente aconteceu no maldito acidente que matou meus pais.Eu já conhecia esse tipo de ambiente. Cresci no meio dele. A diferença é que, antes, fazia parte. Hoje… bom, hoje estava aqui a convite do Hunter. Ele me mandou uma mensagem no meio da tarde, perguntou se eu tinha algum plano pra noite. “Tem a reabertura do Lyric hoje. Se quiser, bora. Vai ser interessante.” E, sinceramente? Eu topei. No fundo, não fazia mal algum lembrar um pouco do que era minha vida antes de tudo desabar.O Teatro Lyric estava simplesmente impecável. Depois de anos fechado — falência, corrupção, aquele combo básico —, ele voltou das cinzas mais brilhante do que nunca. Luzes, flashes, aquele cheiro de veludo velho misturado com perfume caro e egos inflados. Gente bonita — ou, pelo menos, gente bem vestida fingindo que é.Todo mundo ali, equilibrando coquetéis e sorrisos forçados pros fotógrafos e pros jornalistas que adoram esse teatrinho fora do palco também.— Tá mais cheio do que eu imaginava… — comentei baixo, ajeitando a alça do vestido enquanto olhava pro movimento.— Londres ama um espetáculo, principalmente quando tem polêmica envolvida. — Hunter respondeu, meio sério, os olhos varrendo o salão com aquele jeito dele, atento a tudo, meio na dele, meio analisando.A peça? Uma releitura esquisita de O Fantasma da Ópera. Meio conceito, meio experimental, meio “vou fingir que entendi pra parecer cult”. O diretor fez questão de repetir em todas as entrevistas que nem o próprio elenco sabia como terminava. Tá bom, querido. Marketing básico. Palmas pra você, funcionou.O palco tava perfeito. O candelabro, o teatro dentro do teatro, os figurinos. As vozes enchiam o espaço, os efeitos de luz, aquele som que fazia o chão vibrar… tudo no ponto. A tensão crescia no roteiro e, de quebra, crescia na plateia também, que parecia estar surtando mais por tentar entender se aquilo era arte, ou só pretensão pura. A história seguia, aquela tensão crescente, aquele jogo de obsessão, amor impossível, drama. De vez em quando eu trocava um olhar com Hunter, que parecia tão concentrado quanto eu.— Eles capricharam no som. — Ele comentou, cruzando os braços.— Aham… até demais. — respondi, meio distraída acompanhando a troca intensa de falas no palco.Quando o segundo ato começou, avisei baixinho:— Vou no banheiro rapidinho, tá?— Quer que eu vá junto? — ele perguntou mais por impulso do que por real intenção.— Relaxa, é coisa rápida. — dei um sorriso pequeno e me afastei.Banheiro, retocar o batom, ajeitar o vestido… e respirar um pouco. Às vezes, só de olhar pra toda aquela gente, pra toda aquela cena, me batia um peso no peito. O contraste do antes e do agora sempre vem, mesmo quando eu não quero. Mas enfim… foco. Foi coisa de alguns minutos. Voltei ajeitando o cabelo, segurando a bolsinha na mão, e assim que passei pela cortina… pude sentir que algo estava errado.De primeira, achei que fazia parte da peça. As luzes piscando, a cortina sendo fechada antes da hora, aquele silêncio estranho que não tava nos roteiros. Só que, então, vieram os gritos. E não eram gritos de atuação.— Que…? — Hunter se levantou da cadeira na mesma hora, e eu nem consegui responder.As pessoas começaram a se amontoar em frente ao palco, algumas empurrando, outras paradas, em choque. E foi só quando consegui desviar a visão de tanta confusão que eu vi.Ela. Uma das atrizes. Tava ali, no centro do palco. Caída. Imóvel. Sem nenhum sinal aparente de violência, exceto por um corte limpo na base da nuca. E… sem a língua. Sim. Sem. A. Porra. Da. Língua. Pude sentir meu estômago revirar na mesma hora.Ao lado do corpo, uma máscara de teatro. Inteira coberta de sangue. E, no cenário, escrito com batom vermelho, uma frase que parecia ter saído de um filme de terror — ou de um pesadelo muito real:“O show nunca termina pra quem finge bem demais.”Hunter se colocou na minha frente no mesmo instante, como se instintivamente quisesse me proteger de ver aquilo.— Fica atrás de mim. — ele falou, baixo, mais firme, enquanto olhava ao redor tentando entender o que tava acontecendo.— Meu Deus… — foi só o que consegui murmurar.Por uns segundos, ninguém entendeu. Ninguém respirou. Só dava pra ver olhos se cruzando, bocas meio abertas, caras que misturavam choque com desespero e aquele clássico olhar de “alguém faz alguma coisa”. Mas não tinha o que fazer. Nenhuma saída. Nenhum sinal de arrombamento. Ninguém fugiu. Ninguém saiu. Todo mundo ainda estava dentro do teatro.Inclusive eu.Ótimo.Perfeito.Exatamente o que faltava na minha semana.─────────────────────────────With 𝙃𝘂𝗻𝘁𝗵𝗲𝗿

OBS: clique aqui e leia o plot “o sequestro” para entender o andamento da história.─────────────────────────────📍Hospital, dias depois do resgate.- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -As primeiras semanas passaram como um borrão.
Acordar era só uma formalidade: eu nunca dormia de verdade.
Me mantinha ali, num estado entorpecido, onde o tempo se arrastava e os dias se confundiam.
As enfermeiras vinham em revezamento — braços treinados, vozes mansas, passos cuidadosos. Elas me aplicavam remédios, trocavam meus curativos e coletavam exames que eu já nem perguntava mais pra quê serviam.Eu só… aceitava.Não chorava.
Não gritava.
Mal falava.
Ficava encarando o teto com a mesma frieza que encarei o escuro da cela. O vazio agora me era mais familiar do que o som da minha própria respiração.A dor agora era outra.Não mais elétrica, não mais feita de choques ou ossos quebrando no silêncio… mas uma dor que nascia quieta e se expandia devagar, escavando tudo o que eu achava que já tinha cicatrizado.Um luto reverso, pois eu ainda estava viva, mas tinha perdido a mim mesma.[ . . . ]Meu primeiro banho sozinha durou quarenta e dois minutos.Parte esforço, parte medo.
Medo de apagar, escorregar, esquecer quem eu era no meio do vapor.
Meus dedos tremiam ao segurar o sabonete.
Minha pele ardeu onde ainda havia machucado, mas eu não chorei.
Eu não chorei desde que saí daquele lugar.
Sentia como se nenhum motivo que eu pudesse ter para chorar fosse ruim o suficiente em comparação ao que eu já havia passado.
O primeiro alimento sólido que ingeri foi uma torrada.
Sem gosto.
Sem textura.
O primeiro espelho, foi um susto.
O tipo de susto que não faz gritar — só paralisa.
Não parece comigo, murmurei pensativa. Meus olhos presos nos sulcos fundos do meu próprio rosto. Parece com alguém que eu vi morrer em mim.
Leonard estava bem atrás de mim nesse momento, escorado no batente da porta. O silêncio dele era um escudo. Ele sabia que empatia demais podia muito bem me afogar.— “E mesmo assim você sobreviveu. Isso é mais do que muita gente conseguiria.”Não respondi.Não porque discordasse.
Mas porque ainda não entendia como aquele rosto — deformado pelo cansaço, pela dor, pela ausência — ainda podia existir depois de tudo.
[ . . . ]As sessões com a psiquiatra foram cuidadosas, como quem tenta caminhar sobre vidro.Ela me dava palavras novas a cada sessão, diagnósticos e analogias sobre o que o trauma fazia com o cérebro.
Eu ainda não havia tido essa matéria na faculdade mas conseguia entender muito bem o que ela falava.
No entanto, percebi que não estava sabendo demonstrar esse entendimento para a médica, já que ela sempre usava diversas formas para explicar algo que eu já tinha entendido.
— “Seu corpo sobreviveu. Agora seu cérebro precisa de tempo pra organizar o que houve.”Mas eu não queria tempo.
Queria sentido.
E respostas.
E alguém pra culpar.
Leonard aparecia quase todos os dias para me ver, deixar flores, conversar, jogar videogame que consegui contrabandear… ele era uma âncora silenciosa no meio do caos.Às vezes trazia consigo pastas, relatórios, recortes de jornal.
Às vezes ele falava. Às vezes só ficava ali, dividindo o silêncio.
— “O Conselho Clínico tá sendo investigado por três comissões. O nome do Hartman virou veneno.”— Mas ele continua solto. — falei com ódio na voz, encarando a parede do quarto enquanto meu cérebro me mostrava memórias de um Hartman rindo com meus pais em nossa casa.O filho da puta os fez morrer acreditando que era amigo deles.— “Por pouco tempo.”Olhei pela janela, tentando fazer aquelas imagens irem embora. O vidro refletia mais do que o mundo lá fora: refletia uma versão minha que eu mal reconhecia.— O que acontece quando ele vier atrás de mim de novo? — perguntei baixinho porque eu sabia que ele viria atrás de mim de novo. Preciso contratar guarda-costas, pensei.— “Ele não vai conseguir.” — disse Leonard, firme, como se pudesse me prometer o futuro — “Você não tá mais sozinha, Angelina.”— Nunca estive. — murmurei, sem emoção — Acho que foi isso que deixou eles com medo.[ . . . ]Na quarta semana, pedi pra assinar minha alta.Os médicos hesitaram. Falaram de reabilitação, monitoramento, fisioterapia.Mas a verdade é que o hospital já não me segurava — e nem me curava.— “Tem certeza que consegue caminhar até a porta?” — um dos médicos me perguntou, com uma cautela que me deu raiva.A maioria deles me bajulava porque conheciam meus pais e conheciam a empresa que eu estava herdando deles. Os hospitais, clínicas, laboratórios, tudo que carregava o nome Blanchard Health tinha uma fama grande entre os profissionais da saúde de todo o país.— Consigo. — forcei um tom amigável e um sorriso fraco. Puxei o casaco por cima da blusa de algodão, as mãos ainda frágeis. Eu caminhei até aqui de lugares piores, pensei.Leonard segurava a bolsa com os poucos pertences que mandaram buscar: documentos, roupas, um colar antigo da minha mãe.Na saída, ele me entregou um celular novo.— “Já estão ativando seus números. E o contato da agência confirmou. Dois seguranças, tempo integral.”Confirmei com a cabeça, cansada.— Preciso me mudar logo. — falei baixo, mais para mim mesma do que para ele, mas a resposta veio mesmo assim logo em seguida.— “O apartamento em Nova York tá sendo preparado. Os móveis estão todos intactos. E a casa dos seus pais…”— Vai à venda. — completei, sem cerimônias. — Não volto mais pra lá… não dá.Para mim, aquela casa  havia morrido junto com eles.
Tudo que ficou nela eram ruínas do que um dia foi a minha família.
[ . . . ]Os primeiros passos fora do hospital foram… estranhos.O ar parecia pesado, como se o mundo inteiro tivesse ficado mais denso.Tudo era grande demais.
Barulhento demais.
Vivo demais.
As pessoas falavam alto. Carros passavam rápido. As cores agrediam os olhos.
Mas era liberdade.
Crua, real, imperfeita.
E era minha.
De novo.
Dessa vez, eu ia segurá-la com os dentes, se precisasse.Porque eu já tinha sido apagada uma vez.E não daria a ninguém uma segunda chance para fazer isso novamente.

OBS: clique aqui e leia o plot “o sequestro” para entender o andamento da história.─────────────────────────────📍Casa nova, Nova York, alguns dias depois da alta hospitalar.- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -As primeiras noites no novo apartamento foram piores que qualquer madrugada na cela.Pelo menos lá, eu sabia que estava presa.Aqui, a liberdade doía mais do que qualquer grilhão — mais do que os cortes, as privações, mais do que as perguntas sussurradas no escuro.Aqui, eu precisava aprender a existir de novo… sem manual, sem instrução, sem ninguém pra me vigiar — exceto eu mesma.O colchão era fofo demais.
Os lençóis, perfumados demais.
As luzes suaves me davam náusea. Tudo gritava segurança — mas parecia só mais uma simulação.
Um disfarce bonito pra esconder que eu ainda estava em estado de alerta.
Dormia de porta trancada. Às vezes com uma cadeira encostada contra ela, por reflexo. Acordava ao menor estalo do encanamento, ao som de passos no apartamento de cima, ao silêncio pesado das três da manhã. Tinha dias em que me pegava conferindo a varanda em ciclos de obsessão. Três vezes, depois cinco. Depois até perder a conta.Era como se meu corpo tivesse memorizado o medo — e agora, recusasse desaprender.Aos poucos, comecei a habitar o espaço.
Como quem pisa em solo inimigo. Primeiro a cozinha, onde passei a aquecer sopas sem gosto e fazer listas inúteis de mercado. Depois o banheiro, onde organizei meus produtos de higiene em fileiras simétricas, quase obsessivas. Era minha forma de dizer: ainda existe algo que obedece à minha vontade.
— “Você devia descansar mais.” — Leonard comentou, sentado no sofá, folheando os papéis que espalhei pela mesa da sala.— Descansar me deixa vulnerável. — murmurei, sem levantar os olhos do contrato do estúdio. Eu lia pela décima vez mesmo que não estivesse lendo nada de fato.— “Você já não precisa mais se proteger de tudo.”— Não tô me protegendo. — respirei fundo, marcando uma linha do documento com o marcador — Tô tentando me reconstruir com o que sobrou…[ . . . ]Com os 3 milhões recuperados, usei um terço para realizar alguns pagamentos, onde fiz questão de apagar rastros antigos. Também paguei o hospital, paguei minhas dívidas, incluindo Leonard. Ele protestou, claro, mas eu insisti até ele ceder e aceitar o dinheiro..
.
.
.
.
Depois contratei dois detetives particulares. Um pra seguir cada passo do Hartman. Outro pra vasculhar tudo que ele tentou enterrar junto com meus pais.— “Você confia mesmo nesses caras?” — Leonard perguntou, franzindo a testa ao revisar os contratos.— …Não. — balancei os ombros, apoiando os braços cruzados sobre a mesa — Mas confiar virou um luxo que eu não posso mais me dar. O que eu posso é vigiar quem me vigia.O apartamento em Nova York era o mesmo desde antes de tudo desmoronar. Ficava no alto de um prédio antigo, com janelas grandes e cortinas brancas demais. Havia um certo eco nas paredes, como se o tempo tivesse parado ali, esperando meu retorno.Mas eu não voltei. Eu invadi um espaço que um dia foi meu.A casa dos meus pais, por outro lado, seria listada para venda em breve.— “Tem certeza?” — Leonard ainda tentava confirmar, como se não soubesse que eu já tinha enterrado aquele lugar junto com a infância.— …Ela morreu no mesmo dia que eles. — respondi, fria — Não vou embalsamar lembranças só pra fingir que ainda significam algo.[ . . . ]O estúdio nasceu pequeno. Um espaço silencioso, de paredes grafite e espelhos foscos. Pus as barras de pole com minhas próprias mãos. Martelei, alinhei, revisei cada parafuso como quem constrói um abrigo — não só pra mim.As aulas foram divulgadas discretamente. Nada de outdoor, marketing ou perfil verificado. Só indicações entre mulheres que já tinham perdido demais. Corpos marcados por traumas, por abandonos, por silêncios prolongados demais.Eu não prometia cura.
Só movimento.
Elas chegavam caladas. Saíam com as mãos suadas, os olhos acesos, e uma pequena centelha de controle recuperado.A mídia apareceu devagar. Primeiro um tabloide sensacionalista. Depois, marcas e convites que eu rejeitei sem nem abrir. Mas aceitei uma campanha específica. Fundo escuro. Roupas pretas. Nada de sorriso. Nada de retoque.Eles queriam uma imagem bonita.
Eu dei uma verdade desconfortável.
— “Você sabe que as pessoas vão falar, né?” — Leonard comentou, sem levantar os olhos do celular.— Que falem. — respondi, olhando meu reflexo na janela do estúdio, onde a cidade começava a escurecer — …Pelo menos agora vão falar da mulher que sobreviveu.— “E não da garota que sumiu.”Assenti, sem sorrir.— …E isso, por enquanto, é tudo o que eu preciso.- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
As primeiras noites no novo apartamento foram piores que qualquer madrugada na cela.
Pelo menos lá, eu sabia que estava presa.Aqui, a liberdade doía mais do que qualquer grilhão — mais do que os cortes, as privações, mais do que as perguntas sussurradas no escuro. Aqui, eu precisava aprender a existir de novo… sem manual, sem instrução, sem ninguém pra me vigiar — exceto eu mesma.O colchão era fofo demais. Os lençóis, perfumados demais. As luzes suaves me davam náusea. Tudo gritava segurança — mas parecia só mais uma simulação. Um disfarce bonito pra esconder que eu ainda estava em estado de alerta.Dormia de porta trancada. Às vezes com uma cadeira encostada, por reflexo. Acordava ao menor estalo do encanamento, ao som de passos no apartamento de cima, ao silêncio pesado das três da manhã. Tinha dias em que me pegava conferindo a varanda em ciclos de obsessão. Três vezes, depois cinco. Depois até perder a conta.Era como se meu corpo tivesse memorizado o medo — e agora, recusasse desaprender.Aos poucos, comecei a habitar o espaço como quem pisa em solo inimigo. Primeiro a cozinha, onde passei a aquecer sopas sem gosto e fazer listas inúteis de mercado. Depois o banheiro, onde organizei meus produtos de higiene em fileiras simétricas, quase obsessivas. Era minha forma de dizer: ainda existe algo que obedece à minha vontade.— “Você devia descansar mais.” — Leonard comentou, sentado no sofá, folheando os papéis que espalhei pela mesa da sala.— …Descansar me deixa vulnerável. — murmurei, sem levantar os olhos do contrato do estúdio.— “Você já não precisa mais se proteger de tudo.”— Não tô me protegendo. — respirei fundo, marcando uma linha do documento com o marcador — …Tô me reconstruindo com o que sobrou.[ . . . ]Com os 3 milhões recuperados, apaguei rastros antigos. Paguei o hospital, paguei as dívidas, paguei o Leonard — ele protestou, claro, mas eu insisti até ele ceder.Depois contratei dois detetives particulares. Um pra seguir cada passo do Hartman. Outro pra vasculhar tudo que ele tentou enterrar junto com meus pais.— “Você confia mesmo nesses caras?” — Leonard perguntou, franzindo a testa ao revisar os contratos.— …Não. — balancei os ombros, apoiando os braços cruzados sobre a mesa — Mas confiar virou um luxo que eu não posso mais me dar. O que eu posso é vigiar quem me vigia.O apartamento em Nova York era o mesmo desde antes de tudo desmoronar. Ficava no alto de um prédio antigo, com janelas grandes e cortinas brancas demais. Havia um certo eco nas paredes, como se o tempo tivesse parado ali, esperando meu retorno.Mas eu não voltei. Eu invadi um espaço que um dia foi meu.A casa dos meus pais, por outro lado, seria listada para venda em breve.— “Tem certeza?” — Leonard ainda tentava confirmar, como se não soubesse que eu já tinha enterrado aquele lugar junto com a infância.— …Ela morreu no mesmo dia que eles. — respondi, fria — Não vou embalsamar lembranças só pra fingir que ainda significam algo.[ . . . ]O estúdio nasceu pequeno. Um espaço silencioso, de paredes grafite e espelhos foscos. Pus as barras de pole com minhas próprias mãos. Martelei, alinhei, revisei cada parafuso como quem constrói um abrigo — não só pra mim.As aulas foram divulgadas discretamente. Nada de outdoor, marketing ou perfil verificado. Só indicações entre mulheres que já tinham perdido demais. Corpos marcados por traumas, por abandonos, por silêncios prolongados demais.Eu não prometia cura.
Só movimento.
Elas chegavam caladas. Saíam com as mãos suadas, os olhos acesos, e uma pequena centelha de controle recuperado.A mídia apareceu devagar. Primeiro um tabloide sensacionalista. Depois, marcas e convites que eu rejeitei sem nem abrir. Mas aceitei uma campanha específica. Fundo escuro. Roupas pretas. Nada de sorriso. Nada de retoque.Eles queriam uma imagem bonita.
Eu dei uma verdade desconfortável.
— “Você sabe que as pessoas vão falar, né?” — Leonard comentou, sem levantar os olhos do celular.— Que falem. — respondi, olhando meu reflexo na janela do estúdio, onde a cidade começava a escurecer — …Pelo menos agora vão falar da mulher que sobreviveu.— “E não da garota que sumiu.”Assenti, sem sorrir.— …E isso, por enquanto, é tudo o que eu preciso.